Sétima série do ano 1990, lembro que era uma sexta feira e aniversário de uma das minhas melhores amigas. Ela fez uma festinha na casa dela logo depois da escola e chamou algumas pessoas. E eu claro, não podia deixar de ir.

Como estudávamos de manhã, fui direto para lá e, no meio da tarde, toca a campainha e minha amiga achou que fosse algum parente dela. Qual a minha surpresa, quando vejo a Ba, filha da minha fonoaudióloga na porta!!! Eu sabia que minha mãe queria que eu comparecesse a um evento naquele dia, mas nem pensei em ir, pois para uma adolescente de 14 anos era mais divertido estar com amigas. No entanto, minha mãe esperta, sabia que a um pedido da Ba eu não deixaria de atender. Além disso, a Ba explicou aos pais da minha amiga, que era para eu comparecer a um Simpósio para pais de deficientes auditivos, que queriam muito me conhecer. Eles também acharam importante a minha presença ao evento, disseram que iam guardar o bolo para mim e que eu podia voltar no dia seguinte, que era sábado, e que iam fazer churrasco na piscina.

Assim, entrei no carro e lá estava eu a caminho para o evento, que iria ser um marco importante da minha vida. O auditório ficava num hospital. Entramos e passamos por diversos corredores até chegar num salão grande e lotado! Achei que fosse sentar ao fundo, discretamente, para assistir alguma palestra ou filme. Mas a Bá me chamou para segui-la até a primeira fileira e foi então que vi no palco a minha mãe com a Anna Maria, a minha querida fonoaudióloga. Não deu nem tempo de perguntar nada, pois ouvi meu nome sendo anunciado e a Ba me dizendo para subir a escadinha que ia dar na mesa do palco. Tímida, falei que preferia sentar na cadeira junto ao público, mas fui puxada por uma organizadora do evento, até a cadeira vaga entre minha mãe e Anna Maria.

Primeira vez na vida que me vi num palco, diante de um público enorme, formado por pais de deficientes auditivos, médicos brasileiros e estrangeiros e estudantes de psicologia, fonoaudiologia e outros interessados. Não estava preparada e nem imaginava que era tão grande assim e depois me falaram que era um Simpósio Internacional Auditivo, daquele ano em São Paulo.

 A minha mãe, estava lá a trabalho, por indicação da Anna Maria para ser tradutora inglês/português e vice versa. Mas aproveitando minha presença, não poderia deixar de relatar a sua experiência pessoal como mãe de uma deficiente auditiva. Ela começou a contar a história que começava desde a gravidez, quando teve rubéola. E depois passou o microfone para mim, e só aí que eu soube que tinha que falar alguma coisa, mas não sabia por onde começar. Com a ajuda da Anna Maria: “Cristina, por que não conta para nós como é você na escola? Quem são suas amigas? Onde estuda…”. Foi o empurrãozinho que precisava e com naturalidade comecei a falar da minha vida, minha relação com as irmãs, primos e tios. De como era importante ser boa aluna e estudar bastante para passar de ano e sobre as minhas amizades.

Minha mãe complementava minha narração com alguns comentários de como ela me estimulava a falar melhor, aprender a ouvir bem e assim, incentivar a minha independência.

No encerramento, o que me chamou a atenção, foi quando os pais e estudantes, ao invés de irem conversar com  os profissionais e os  médicos, vieram falar comigo. Com curiosidade e perguntas sobre coisas que eram simples e cotidianas da minha vida, tais como eu interagia com outras crianças, se minha perda era profunda mesmo e como eu conseguia falar, se eu já tinha sofrido preconceito e várias outras questões. Pude sentir que, conforme ia respondendo, muitos pais se comoviam, chegando a chorar na minha frente e alguns estudantes queriam saber mais a respeito do método aplicado em mim para entenderem que “milagre” era esse. Até que uma aluna da PUC me fez uma pergunta que seria o ponto de partida da minha vida: “Por que não escreve um livro sobre você? Você tem muita riqueza e valores familiares lindos a serem passados para os outros”.

Naquela época, eu estava mais interessada em curtir a minha fase de estudante, ter minhas amigas e levar uma vida normal. Mas sinto que isso ficou lá dentro da minha cabeça, como uma semente a germinar.

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