Era um dia normal, morando em Curitiba, minha mãe recebeu uma ligação do meu medico. Na hora fiquei preocupada, pois tinha acabado de me consultar com ele. Minha mãe conversou rápido, ela anotou algumas informações no papel e eu pensando comigo: será que preciso de vitamina ou alguma vacina!?

Terminando a conversa, minha mãe veio me contar. No dia anterior, o meu medico atendeu um casal jovem com um bebê de poucos meses. O diagnóstico do bebê era perda auditiva severa a profunda, com uma história bem parecida com a minha, na qual a mãe teve rubéola na gravidez. Meu medico tentou conversar com o casal, tranquiliza-los. No entanto, percebeu que tanto a mãe quanto o pai estavam desmotivados e perdidos em relação ao futuro do seu filho. Foi então que se lembrou de mim e ligou na hora para minha mãe.

Ele perguntou a minha mãe se eu e ela podíamos visitar o casal e conversar um pouco, caso fossemos a São Paulo algum fim de semana. O principal era que o casal pudesse me conhecer pessoalmente, pois apesar de já ter falado a meu respeito, sabia que me “vendo” e conversando faria toda diferença.

Minha mãe sempre pensando nos outros, aproveitou a primeira oportunidade que iríamos para SP, ligou para o casal, marcando um horário de ir a casa deles. Lembro que era uma sexta- feira à noite.

Quando entramos no apartamento deles, percebi que eles estavam ansiosos para me conhecer e ao mesmo tempo inseguros, pois não tinham ideia alguma de como eu seria, se falava, ouvia, etc. De início o casal se dirigia mais a minha mãe para saber um pouco da história dela, como ela se sentiu ao receber a notícia e de como ela procurou ajuda. Depois eu comecei a falar, notei que o casal ficou surpreso, pois eu estava acompanhando a conversa toda e tranquilamente.

A partir desse momento, percebi a mudança nos pais e que eles queriam saber tudo a meu respeito, desde as coisas mais simples, de como me relaciono com os amigos, a família, o que gosto de fazer e inclusive até mesmo a mais simples questão como: se eu realmente escutava bem com os aparelhos auditivos.

Sempre tive prazer em ajudar as pessoas e em toda minha vida, sempre fiz questão de conversar e responder a todas tranquilamente. Com a perda que eu tenho, expliquei ao casal, que sem os aparelhos não escuto nada (com exceção de barulhos como trovoadas em dia de tempestade, por exemplo kkkkk), mas graças aos aparelhos auditivos, desde a infância aprendi a ouvir e discriminar sons como latido de cachorros, batidas de portas, campainha, telefone tocando e ouvir a voz de outras pessoas.

A melhor parte veio quando contei que estava me preparando para vestibular. Pretendia fazer Comunicação Social (jornalismo), pois adoro ler e escrever. Senti que eles relaxaram bastante e ficaram bem à vontade. O que era para ser um breve encontro, acabou durando horas e horas de bate papo. Eu e minha mãe até ficamos atrasadas para o compromisso que tínhamos, um jantar na casa de uma prima. Mas a noite estava tão agradável e acabou tudo dando certo, pois a prima da minha mãe falou ao telefone que não tinha “horário” e quando a gente estivesse indo, para avisá-la.

No dia seguinte ao encontro o meu médico ligou para minha mãe e contou que o casal tinha entrado em contato com ele. Estavam bem animados e loucos para começar a trabalhar na reabilitação do filho, pedindo indicação de um fonoaudiólogo para comprar aparelhos auditivos e iniciar o tratamento.

Eles ficaram muito felizes ao me conhecer e agradeceram muito ao doutor!!!

Hoje, soube que esse bebê, já é um garotão grande que interage com o mundo tranquilamente, fala e ouve bem com aparelhos auditivos. E por fim, bem feliz. Eu também fiquei muito feliz, em contribuir com uma pequena parcela, pois percebi o quanto é importante para os pais terem motivação e incentivo, principalmente na parte “humana” de um bebê que nasce com perda auditiva.

Minha própria mãe sabe e entende bem o que é essa sensação de estar “perdida” e um dia ver uma “menininha deficiente auditiva” pouco mais velha do que eu na época, conversando com a mãe dela.

Desde então, aos poucos, comecei a conversar cada vez mais com pais de crianças com perdas auditivas. Em encontros na sala de espera da Anna Maria, minha fonoaudióloga, quando vou almoçar com ela, ou em locais inusitados como rua, shopping e eventos em geral.

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