– O que é isso que tem na sua orelha, tia?

Uma criança da creche onde eu fui voluntária me fez essa simples pergunta em relação aos meus aparelhos auditivos. Percebia nela somente uma curiosidade infantil em saber o que eram esses “trecos” que eu tinha dentro das orelhas… e assim, me agachei para ficar próxima a ela e respondi:
– É um aparelho que eu uso para ouvir melhor. Sem isso não escuto nada.
E assim, levantei meus cabelos e mostrei o aparelho. E perguntei:
– As pessoas não usam óculos para enxergar melhor?
Ela balançou que sim com a cabecinha e continuei:
– É bem parecido, apenas que os aparelhos ficam nos ouvidos e precisam de pilhas.
Sempre uso o exemplo dos óculos, pois eram mais comuns entre as crianças. Satisfeita a curiosidade, a criança sorri para mim e eu dou um beijo nela. Logo em seguida ela ia brincar com as outras crianças da creche.

Essa cena é bem comum em minha vida. Eu sou apaixonada por crianças, sinto um carinho muito grande por elas. Minha madrinha, que trabalhava na creche, me dizia que as crianças me adoravam e sempre perguntavam quando que eu “apareceria” de novo lá. Pois eu ia somente em datas comemorativas ou quando tinha passeio em algum museu como a que teve na FAAP, sobre “Napoleão Bonaparte”. Eu, como devem ter adivinhado, eu dava aulas de histórias, sempre com cartazes e encenações das batalhas de época. Gostava que as crianças usassem a imaginação.

Hoje, sou tia de quatro sobrinhos lindos, que são minhas paixões! Todos sabem que a tia deles usa aparelhos auditivos, mas as vezes esquecem, em especial os meninos. Ainda agora há pouco, estava viajando no banco de trás com o Mateus e a Natalia. O Mateus dizia algo para mim, mas eu não conseguia entendê-lo. A Natalia, de 9 anos falou para o irmão:
– Mateus, fala olhando para a tia, que assim ela entende!
Achei graça na percepção dela e mentalmente desejei ter uma filha como ela. Aliás, desejo ter os quatros sempre em minha vida! A minha afilhada Luiza sempre, quando eu não entendo alguma coisa, ela faz questão de repetir até que eu compreenda.

Voltando mais atrás no tempo, a Natalia desde que a peguei no colo, ela prestava atenção, olhava para meus aparelhos e era a que mais perguntava “o que era aquilo” e eu explicava, como citei no inicio do texto.

Sempre tive maior dificuldade de conversar no carro a noite, pois além de ser escuro há barulhos como vento, música e outras pessoas falando. Estava no banco de trás com a Natalia que tinha uns quatro aninhos, sentada na cadeirinha. A minha sobrinha falou alguma coisa olhando para mim e claro, não entendi… Ela repetiu mais uma vez, só que mais alto. Minha irmã que estava dirigindo com a minha mãe ao lado, ambas ficaram em silêncio prestando atenção atrás. E antes que qualquer uma de nós explicasse a Natália, ela que estava brincando com uma lanterninha, a acendeu, iluminou a boca dela e repetiu novamente. Todas nós ficamos surpresas, pois ninguém tinha comentado com ela que no escuro era mais difícil para mim. Acho que ela percebeu que eu devia olhar muito para a boca dela.

A Luiza, que além de ser mais velha dos quatro, com diferença de apenas 2 meses a mais que a Natalia, também tem 9 anos. Várias vezes quando estava sozinha com ela em casa, tocava o telefone e ela sempre atendia para mim. E as vezes quando o Rodrigo, irmão mais novo dela e agitado, falava comigo andando pela casa, e eu já olhava para minha afilhada que começava:
– Dinda, ele quer…
Mas sempre fiz questão de os meninos saberem como eu sou e por isso que explicava, tanto ao Mateus quanto ao Rodrigo:
– A tia Cris não consegue entender, fale devagar, olhando para mim.
Assim, os meninos faziam isso e tudo ficava mais fácil.
É tão gostoso e divertido ver esses quatro juntos, com idades próximas e brincando! Adoro observar cada um deles, com seu jeitinho particular e personalidades diferentes.

E o mais gostoso de tudo é quando ESCUTO eles me chamando de “Tia Cris ou Dinda”! A felicidade é enorme e isso, graças aos aparelhos que uso e ao intenso treinamento que tive com minha fonoaudióloga e família, para aprender a ouvir e a falar. Não tem preço…

Parabéns a todas as crianças nesse dia especial de 12 de outubro e que seu mundo seja sempre colorido, cheio de amor e carinho!

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